Adolescência
Tudo começa com um sorriso e uns olhos grandes. Não, não sou o lobo mau. Vou começar de novo. Tudo começa com um sorriso e uns olhos grandinhos, também não. Outra vez. Tudo começa com um sorriso. A luz ao romper do dia e chegava atrasada à escola. Para variar. Um sorriso dela, um sorriso dele. E uns dentes sobrepostos e tortos, dele, ela tinha-os perfeitos. Só que aquele sorriso com um ou dois dentinhos sobrepostos noutros era singular e encantador, devidamente higienizados. Subitamente, olho para ele, vejo aquele sorriso, numa aula de química ( que apropriado) , e penso: é aquele, é o tal. Fiquei perplexa porque tinha acabado de escolher ali o homem da minha vida. E que iria dar cabo da mesma. Foi um momento repentino, olhei e percebi que era bonito e que gostava dele, com outro na carteira de trás também quase tão bonito e magro mas que se chamava gordinho , esse que poderia eventualmente ter sido a minha salvação , nem que fosse por um verão ou uma temporada escolar para me desviar de determinado caminho, deixei-o fugir. Pois o meu interesse refletiu-se no outro filho da mãe. Numa aula de química, e a porra da “química” nasceu ali. E depois na praia a vida era uma maravilha cheia de cores, amizades, alegrias, um autêntico paraíso na terra. Tudo começa com uma paixão e a carteira a flutuar e as borboletas na barriga. A professora a dar-me o conselho para nem sequer olhar para ele pois não era de boa índole. E eu ria-me. Viria a chorar tempos depois. Eu não sabia o que a professora sabia. Por fora gritava e gritava e dizia nomes malcriados mas por dentro a minha alma era bem educada. Não faz sentido. Se é que alguma coisa fez sentido. Porquê que um gajo rico e bonito não me veio buscar? Como o Nicolas Cage? Sim, como o Nicolas Cage. Até me saiu uma lágrima do olho sem dar por isso. Só porque queria que o Nicolas cage ou o Sean Connery (por exemplo) me viessem buscar. É que eles me podia vir buscar. Quem? O Nicolas Cage? Sei lá, um gajo rico e bonito. Mas o Nicolas Cage, adoro esse homem. Acontece que, por razões que desconheço, a minha alma grita por independência. A minha alma grita para um dia puder dizer numa discussão, quem tá mal mude-se porque isto é meu. E assim a vida floresce para mim. No entanto eles podem dizer- vai sonhando rapariga! Sem saberem que um dia quem vai dizer isso muitas vezes sou eu.
Octávia