Eu me perco. Eu escolho o inóspito o vazio e o infame e eu me perco. Eu escolho a desventura o desamor a sequela e a perdição e eu me perco. Eu me perco, ouviste? Eu me perco. Eu escolho sorrir à inibição ao desalento e à apatia e eu me perco. Eu escolha fugir da própria vida sem correr e sem saltar onde eu me perco. Eu escolho a tua verdade a minha mentira eu escolho ser aquela não ser esta eu me perco. Eu escolha a realidade da conversão da alternativa possuída e calculada sem sair do lugar. Eu escolho ficar eu escolho-te a ti e eu me perco. Eu me perco, ouviste? Eu me perco. A minha sinuosa sensação de que tudo me persiste nas voltas que dou estava errada sabes porquê? Porque eu me perco. Eu me perco nas voltas nas entrelinhas nos propósitos nas emoções nas texturas nas cores na liberdade e na convocatória. Eu estou-te a dizer eu me perco. Eu escolho sucumbir ao deslizamento e ao infortúnio das lamentações das deliberações incertas e de toda a ambivalência subtil desalinhada e exagerada na metamorfose das palavras e dos sentimentos e tudo isto porque eu me perco. Eu escolho a melodia dissonante a desconexão preponderante e a queda dos anjos. Eu me perco, simplesmente me perco. Eu escolho o ritual dos mistérios de Eleusis e escolho ficar a olhar para o horizonte. Eu escolho depois do fim mas eu sei que depois me perco, é tanta coisa que eu me perco. Porque eu escolho depois do fim. Eu escolha a transição entre uma convexa e uma intransigente uma muda e uma surda uma perdida e uma fechada eu escolho saber que não, eu escolho a descontrução do ideal para remeter ao silêncio e ao perturbador eu escolho perder porque eu sei que não ouviste? Eu sei que não e eu me perco. É tanta coisa. Eu me perco. Nesta autenticidade que me converte a sensação de ansiedade medo frustração e alheamento temporário desejo que as palavras sejam necessariamente frívolas, o bastante para não convergir à realidade. Mas sim é tanta coisa ai se eu me perco.