A infância perdida

Um nascer do sol através do vidro da janela da camioneta. Um vermelho alaranjado e que se expandia nas planícies alentejanas. Seguíamos viagem nesse dia. Para Lisboa. Uma viagem de estudo. Através da janela do autocarro o sol a nascer que me prometia grandes coisas no futuro. Eu sentia que sim. Havia na música da rádio uma nostalgia qualquer que mais parecia que o passado era o futuro e o futuro era o passado. Chorando se foi quem um dia só me fez chorar. Dizia ela. Tudo me dizia que aquela nostalgia era especial ou simplesmente peculiar numa certa forma de ser. A música era actual naquele tempo e eu sentia nostalgia do futuro. Eu era uma miúda, eu não me via muitas vezes ao espelho, mas parecia que ao  ver o sol naquela imagem tão nítida estava a entender algo de mim. E parecia que a minha blusa era vermelha? Acho que sim. Na rádio a lambada brasileira e talvez uma ou outra música dos GNR que me prometia peripécias e muita vida. Isto tem uma ambiguidade que nem vos conto. Ao fugir da própria vida. Começava assim uma canção. Dizia-me essa canção que havia muito a saber , havia obstáculos a ultrapassar, sem correr e sem saltar. Na realidade poderia eventualmente já revelar algum egocentrismo. Mas pensava nos outros.  Pensava nos outros, defendia os outros, não acreditava no mal. Acreditava nas pessoas e no potencial das mesmas. Mas acima de tudo, se tivesse de dar uma lição já em tão imatura idade, diria que seria o facto de acreditar no meu próprio potencial. Acreditava que grandes coisas me esperavam. Na realidade o que me marcou naquele momento foi aquela música brasileira e o nascer- do- sol. Foi a minha imagem através do vidro espelhado. Foi um certo entendimento de algo ainda assim desconhecido. Não me lembro bem quantos anos tinha, mas sabia que estava na primária. Na escola de Vale de lapa nas sesmarias. A escola hoje está fechada mas já houve quem me dissesse que agora a escola servia de espaço para a prática de capoeira. Pelo menos utilizam o espaço para algo produtivo. Durante a viagem o meu amigo e colega Paulo fez-me uma pergunta: Octávia o que se chama aquilo? Aquilo o quê? Perguntava. Porque eu não estava a perceber a que ele se referia. É uma árvore ao longe, é um sobreiro, é….sei lá, não sei a que te referes! E fazendo o que ele costumava fazer, quando eu dava uma resposta errada, fingindo que caia no chão fazendo-se de morto, disse ao mesmo tempo pasmado- é uma planície! A professora Emília olhou para os dois com ar de quem acha graça. Foi assim que eu nunca mais esqueci o que era uma planície, se bem que para mim era um simples terreno sem muitas árvores ou quase nenhumas, por isso na minha opinião não tinha muito a dizer. Mas o tempo estava uma maravilha. Uma planície….um terreno sem árvores , é assim tão importante dar um nome a isto? Foi por isso que não vi qual era a dele. Tipo- What´s the point?  A camioneta ia cheia. Éramos muitos, seriamos pelo menos de 3 escolas. Antes de começar a viagem encontrei a prima Mónica, da escola de Val-del-rei acho eu ou de Alfanzina, já não me lembro. Faziamos uma festa quando nos encontrávamos. Prima! Grandes abraços. Ela era minha prima por uma simples questão. A minha tia tinha-se casado com o tio dela. E assim éramos primas. Diga-se de passagem que na altura até eramos um pouco parecidas, pelo menos na forma de vestir talvez. Acho que seria isso ou o facto de gostar de cantar e dançar. Digo eu. E os meus amigos, praticamente todos rapazes começavam a gostar muito dela e eu tinha ciúmes porque até então eu era a única rapariga da minha classe. Tantos ciúmes que uma vez levantei a saia a dançar só para que voltassem a olhar para mim. Ficou tudo no túnel do tempo e na memória. A imagem dela, a imagem dos meus amigos, a minha imagem, a imagem pra lá da janela da camioneta ficou tudo na minha mente e até hoje me lembro do inicio daquela viagem que me levou muito para lá de onde eu pensava ir. Eu não fui só para Lisboa. Eu embarquei numa viagem de pensamentos e imagens para lá do normal. Comecei a registar muita coisa mas tanta outra ficou perdida. Os tempos mudaram juntamente comigo.

Mas não começou assim. Na minha memória existe uma menina loira com uma irmãzinha, ansiosas de chegar à praia. Lembro-me de percorrer o caminho da minha casa até á praia. Lembro-me de uma roupa branca e uns sapatinhos próprios de Verão rosa. A minha roupa era branquinha, não sei se era um calção e uma blusinha ou um pequenino vestido. Sei sim que ia andando pelo caminho em fila indiana com alguns primos e a restante família. Passava com as mãos nas ervas e nos panascos já secos, só para sentir essa vida tão vegetal e filha da mãe Natureza. Sentia um sol deslumbrante e a minha vida fazia muito sentido com aqueles dias de sol e calor. Quando o cabelo ainda meio loiro ficava mais loiro ainda devido às intervenções do sol e do sal do mar. A coisa mais parecida com esta memória que eu  já tenha visto será uma pequena parte do filme de Maria Antonieta, a brincar com a filha de cabelos loiros e roupa branquinha no jardim. Eu seria a título de comparação, a miúda no meio de todo aquele campo. Quando vi aquela cena do filme quase me emocionei. Sinceramente a vida tem mistérios desconhecidos e interessantes. Porque nos identificamos com realidades e ficções. Não sei. Mas a miúda cresceu e ainda me lembro de percorrer caminhos de terra batida de bicicleta como se tivesse algum destino para onde seguir e, no entanto, voltava sempre a casa. E a minha casa no meio de todo aquele campo e perto da praia tudo tão bem arrranjado que estava, era uma bênção, hoje só me apetece fugir daquela casa porque se tornou num sitio inóspito mas por outro lado tenho o coração preso naquele sitio devido a uma infância tao feliz e singular que me faz perder os sentidos do que é ou não sitio apropriado para se viver.

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