A liberdade tem um custo

A liberdade tem um custo. Sentia-me sozinha e não estava preparada. Tinha ainda o Mundo aos meus pés e podia ainda conquistar qualquer coisa que fosse valorizada na sociedade. Não sei se era a juventude, se era a perspectiva e a noção de pertença a futuro. Não sei se era a música que ouvia. Não sei se eram os amigos que tinha e os que estava a tentar conquistar. O custo da liberdade foi um sofrimento de algo que me tinha sido cortado, como uma raiz arrancada. E chorei. Na nova casa.

Enquanto passava pela rua e pelo jardim daquela cidade Alentejana dei-me conta que o Mundo e eu eramos um só, sozinhos numa solidão reconhecida. Cheguei à porta daquela casa diferente e ainda desconhecida e reparei que tinha perdido as chaves. I just gave myself away. Chorei. Outra vez. Com a noção de que poderia ficar na rua à noite. Percorri as ruas devastada e meio descontrolada em desespero. Foi quando o jardineiro pretinho que me tinha sorrido no jardim e que eu achei peculiar – um sorriso inocente de quem estava a fazer pela vida e que reparou em mim por qualquer motivo, e eu reparei naquele sorriso ingénuo por qualquer razão e também acho que sorri – estava a subir a rua e só olhou e viu como estava e deu-me as chaves. Fiquei aliviada. Mal dissemos algo. Comunicamos com o olhar e ele entregou-me as chaves e sorriu outra vez. Nós nos reconhecemos naquele instante no jardim. Como se algum espectro do céu ou alguma aura me tivesse dito vocês se estão a reconhecer porque têm algo em comum. Eu acho que seria a inocência. A alegria. A crença ingénua num Mundo melhor. Eu vi isso naquela expressão de esperança no futuro e na vida. Tal como eu.

Hoje saí, fui com a minha gatinha ao veterinário e quando cheguei ao carro pensei que tinha perdido as chaves. Chamei um senhor que muito gentilmente foi procurar as chaves do carro no passeio, e de repente vi que já tinha a chave colocada na porta do carro. Agradeci e pedi desculpa, foi um lapso. E grande. Lembrei-me então do episódio das chaves perdidas da casa dos tempos de Universidade no Alentejo.

Estava no meu carro estacionada depois de ter ido à Staples e ouvi uma música vinda de outro carro de outra mulher, e dizia: Já tinha atravessado um deserto!

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